Economia na Primeira República Durante a Primeira República, a economia brasileira permanece centrada na produção cafeeira, mas avança o processo de modernização e diversificação das atividades econômicas. No final do século XIX, os engenhos nordestinos modernizam-se com a instalação de usinas mecanizadas. No sul do país, as pequenas propriedades de colonização estrangeira aumentam sua participação no mercado interno e externo, com núcleos econômicos exportadores de charque e erva-mate. Na região Amazônica intensifica-se a exploração da borracha, valorizada pela nascente indústria automobilística. A indústria brasileira também cresce com capitais vindos da cafeicultura ou estrangeiros, e expandem-se os organismos de crédito. No início do século, empresas estrangeiras instaladas no país, como a anglo-canadense Light & Power e a norte-americana Bond and Share, ampliam os serviços urbanos de água, luz e transportes.
Política econômica
A valorização do café, a emissão de moedas e a inflação são as questões centrais da política econômica da Primeira República. A escassez de moeda, um problema que surge com a abolição da escravatura e com a imigração, torna-se aguda com o crescimento do trabalho assalariado no campo e na cidade. Em janeiro de 1890, Rui Barbosa, ministro da Fazenda do governo provisório de Deodoro da Fonseca, tenta resolver o problema adotando uma política emissionista, a primeira do país, chamada de encilhamento. Mais tarde, no governo de Campos Sales, a superprodução do café dá início à política de desvalorização da moeda nacional, num processo de socialização das perdas dos cafeicultores.
Encilhamento – A política monetária de Rui Barbosa fica conhecida como encilhamento, uma alusão ao lugar do hipódromo onde são feitas as apostas nos cavalos. O país é dividido em quatro zonas – Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul – e um banco emissor é instalado em cada uma. Seu objetivo é atender às novas necessidades financeiras, expandir o crédito e estimular a criação de novas empresas nessas regiões. O resultado, porém, é desastroso. A emissão de moedas sem controle acelera a inflação, que chega aos 115%. Proliferam também as atividades especulativas: empresas fantasmas com grandes planos irrealizáveis supervalorizam suas ações na Bolsa de Valores em uma orgia especulativa que faz surgir grandes fortunas da noite para o dia.
Desvalorização da moeda – No final do século XIX, a alta do preço do caféno mercado internacional estimula a expansão da lavoura no país. O resultado é uma superprodução e, em conseqüência, a queda dos preços nos mercados consumidores. Em 1893 uma saca de 60 quilos vale 4,09 libras-ouro. Seis anos depois, em 1899, o preço cai para 1,48 libra-ouro. O governo intervém e desvaloriza seguidamente a moeda brasileira: embora o café renda menos em moeda estrangeira, esta pode comprar mais moeda nacional, garantindo os ingressos dos grandes produtores. O restante da nação, porém, precisa pagar mais pelas importações, há um aumento geral nos preços internos e no custo de vida.
Dívida externa – Com a desvalorização da moeda, o governo fica sem condições de pagar os juros da dívida externa e é obrigado a contrair novos empréstimos para honrar os anteriores. O governo Campos Sales decreta a primeira moratória da dívida externa, o funding loan: os banqueiros avalizam um novo empréstimo de 10 milhões de libras, dão um prazo de 13 anos para o Brasil começar a saldar o grosso de suas dívidas e de 3 anos para pagar os juros devidos. Como garantia aos credores, o governo hipoteca a Central do Brasil e o serviço de água do Rio de Janeiro. Assume também uma política de deflação: corta despesas públicas, interrompe obras, demite funcionários, restringe o crédito e aumenta impostos.
Valorização do café – A superprodução do café atinge seu pico na safra de 1905 e 1906: são produzidos 22 milhões de sacas frente a uma demanda que não ultrapassa 6 milhões de sacas. Para contornar a situação, os governadores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro firmam o Convênio de Taubaté, em 27 de fevereiro de 1906, e dão início à chamada política de valorização do café: contraem novos empréstimos no exterior, compram toda a produção excedente e regulam a oferta de forma a evitar a queda dos preços do produto. De 1906 a 1909 retiram do mercado 8,5 milhões de sacas de café. Os empréstimos para pagá-las chegam a 15 milhões de libras esterlinas. A longo prazo, os efeitos dessa política são desastrosos: a dívida externa e a inflação crescem ainda mais e a manutenção artificial dos preços estimula a produção nos países concorrentes do Brasil.
Diversificação das exportações
Em seus melhores momentos, o café representa 70% do total das exportaçõesdo país, mas outros produtos agrícolas ganham importância na pauta de exportações a partir do final do século XIX. Os principais são a borracha, nativa da Amazônia, e o cacau, plantado na Bahia. A explosão das vendas desses produtos promove um surto de progresso nessas regiões.

Apogeu da borracha – Os preços do látex extraído das seringueiras da Amazônia (Hevea brasilienses) explodem com a invenção do pneumático e a expansão da indústria automobilística nos Estados Unidos. A produção brasileira cresce rapidamente e, em 1907, a borracha já é responsável por 23% do valor das exportações brasileiras. O recorde ocorre em 1912, quando são exportadas 42 mil toneladas de borracha. A partir de 1910, no entanto, holandeses e ingleses desenvolvem plantações planejadas e com grande produtividade na Indonésia, Ceilão e Malásia. Em 1919 a borracha asiática já inunda o mercado internacional: das 423 mil toneladas comercializadas, apenas 34 mil toneladas são brasileiras. A produção da Amazônia definha e toda a região entra em decadência.
Cultivo do cacau – No final do século XIX a demanda européia e norte-americana pelo cacau torna seu plantio lucrativo. O cultivo desenvolve-se na região de Ilhéus, no sul da Bahia, onde o solo e o clima são ideais, há terras virgens em abundância e mão-de-obra barata. A produção atinge seu pico em 1900, quando o Brasil vende 13 mil toneladas de cacau e firma-se como o maior exportador mundial. Nos anos seguintes, os ingleses instalados na Costa do Ouro, África, passam a dominar o mercado.
Industrialização
A riqueza acumulada com o café dinamiza o mercado consumidor e estimula o desenvolvimento industrial. Em 1910 o Brasil possui cerca de 3.500 indústrias. Dez anos mais tarde já são 13 mil estabelecimentos industriais. Destes, 5.936 surgem entre 1915 e 1919, em conseqüência das dificuldades de importação durante a Primeira Guerra e da política de incentivo à industrialização dos governos republicanos. Em 1924, o país produz 99% dos sapatos consumidos internamente, 90% dos móveis e 86% dos têxteis. A indústria de alimentação é a que mais cresce nas primeiras décadas da República e chega a representar 40% dos estabelecimentos industriais do país.

Presença do capital estrangeiro – No início do século XX o capital estrangeiro amplia sua presença no Brasil, principalmente o norte-americano. A indústria da carne é dominada pelos frigoríficos Wilson, Armour, Swift e Anglo; os vagões ferroviários são feitos pela fábrica norte-americana Pullman e os automóveis que circulam no país são da Ford ou da General Motors. Na siderurgia, os franceses e belgas tomam a dianteira com a Companhia Belgo-Mineira. Dos 14 bancos existentes em 1910, sete são estrangeiros.
Crise de 1929
A quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, tem reflexos desastrosos sobre a economia brasileira. Os preços internacionais do café despencam e os créditos para o país são cortados. O governo fica sem condições de manter a política de valorização do café e a situação é agravada pela produção recorde do ano: 30 milhões de sacas. Inúmeros fazendeiros vão à ruína e multiplicam-se as falências no comércio e na indústria. O governo faz crescentes emissões de moeda, política que agrava ainda mais a crise do país e enfraquece a hegemonia das burguesias paulista e mineira.
Referências bibliográficas
- Almanaque Abril. ALMANAQUE ABRIL 95: a enciclopédia em multimídia. Abril, São Paulo, 1995. (bibliografia completa)
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