Faixa da seção de História Geral
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Tendências Contemporâneas


Os últimos 25 anos são marcados por uma rápida e intensa reordenação da política e da economia em todo o mundo. Na política, o principal fator de mudança é o fim da polarização Estados Unidos-União Soviética. A perestroika de Gorbatchov e a queda do muro de Berlim precipitam o desmonte da União Soviética. Emergem conflitos localizados, antes abafados pela polarização. Muitos deles têm caráter étnico ou religioso. O racismo e o extremismo de direita ganham novo fôlego. E o crescimento do fundamentalismo islâmico assusta o Ocidente. Na economia, novos blocos são formados. Os Tigres Asiáticos aceleram seu desenvolvimento, os Estados Unidos enfrentam dura concorrência do Japão em seu próprio território e a velha idéia da unificação da Europa é mais uma vez retomada com a criação da Comunidade Econômica Européia – hoje, União Européia.

Nova organização do trabalho – Até os anos 70 predominava na indústria mundial a organização fordista ou taylorista do trabalho, caracterizada pela linha de montagem e funções específicas para cada operador do processo produtivo. A partir de então, a revolução tecnológica na informática, microeletrônica, biotecno, novos tipos de materiais e outros campos produtivos têm imposto ao trabalho humano novas modalidades de organização.

Informatização – Por um lado, avança rapidamente numa nova divisão entre aqueles que criam os sistemas informáticos com base em conhecimentos científicos e aqueles que operam tais sistemas, necessitando conhecimentos básicos. Nessa nova divisão do trabalho, os trabalhadores manuais têm cada vez menos espaço. Por outro lado, tanto os cientistas quanto os operadores dos sistemas informatizados precisam possuir habilidades e conhecimentos múltiplos que permitam facilidade no intercâmbio de funções, em função da velocidade das mudanças no processo produtivo. Finalmente, essas mudanças tecnológicas e na qualificação profissional exigem mais autonomia e participação dos trabalhadores: a programação das máquinas passa das chefias para os operadores. O fordismo é substituído pelos novos padrões de organização do trabalho criados pela Toyota, japonesa.

Taylorismo – Sistema de organização do trabalho baseado no controle de tempo de execução de cada tarefa, descrição minuciosa do trabalho e economia de gestos e movimentos. É desenvolvido no fim do século XIX pelo engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor.

Fordismo – Teoria de administração industrial concebida pelo norte-americano Henry Ford. Visa aumentar a produtividade pela estandartização dos produtos, redução de custos e maximização da produtividade com trabalho altamente especializado.

Produtividade e desemprego tecnológico – A introdução dos novos sistemas tecnológicos e dos padrões de organização do trabalho que os acompanham tem elevado substancialmente a produtividade do trabalho. As máquinas produzem muito mais com muito menos trabalhadores. Essa crescente produtividade imposta pela revolução tecnológica tem elevado, por outro lado, o chamado desemprego estrutural ou tecnológico. Na década de 60 o desemprego estrutural reconhecido como normal é de 2% a 3% da população economicamente ativa. Na década de 70 esse percentual sobe para 4% e nos anos 80 para 6%, havendo uma tendência para um crescimento acelerado desse tipo de desemprego. O desemprego estrutural ou tecnológico atinge primeiro os trabalhadores manuais ou de baixa qualificação. Mas a partir do anos 80 tem atingido também trabalhadores qualificados e técnicos, cujos ramos produtivos são substituídos por outros novos.

Concentração de renda e aumento da miséria – A combinação de revolução tecnológica, elevação da produtividade e aumento das taxas de desemprego estrutural tem criado tendências bipolares na maioria dos países, mesmo naqueles industrialmente desenvolvidos. Por um lado, há uma crescente concentração de renda num dos pólos da população, enquanto os sinais de pobreza e miséria aumentam no pólo oposto. Nos Estados Unidos a faixa dos 20% mais ricos tem uma renda 11 vezes maior do que a dos 20% mais pobres. No Japão, Suécia, Coréia do Sul, Finlândia e Alemanha essa relação é de 5 vezes. No Brasil, Venezuela, México, Nigéria e outros países da América Latina, África e Ásia essa relação é de 30 vezes ou mais. Tem aumentado em todo o mundo o número de pessoas sem moradia e sem acesso aos equipamentos de saúde e educação.

Multipolaridade – O fim da Guerra Fria, o declínio econômico relativo dos Estados Unidos e da União Soviética, a unificação econômica e política da Europa, o crescimento econômico do Japão, o surgimento dos tigres asiáticos e o rápido desenvolvimento das reformas chinesas liquidaram com a bipolaridade que opunha Estados Unidos e União Soviética. Embora os Estados Unidos se mantenham como uma superpotência militar, o mundo tende para uma multipolaridade econômica e política que pode evoluir também para uma multipolaridade militar.

Neonacionalismo – A desagregação da União Soviética e a derrocada dos regimes comunistas do Leste Europeu fazem ressurgir fortes tendências e movimentos nacionalistas, de fundo étnico e religioso, tanto no Leste Europeu quanto na Europa Ocidental.

Neonazismo – Manifesta-se principalmente na Alemanha e na Áustria, onde os grupos de extrema direita mais antigos, formados por saudosistas do regime de Adolf Hitler, ganham novo alento com a adesão de grupos de jovens conhecidos como cabeças-peladas (skinheads). Na Alemanha esses grupos desencadeiam no início da década de 90 uma onda de ataques racistas contra comunidades estrangeiras, em particular contra os imigrantes turcos, africanos e vietnamitas, causando várias mortes. Grupos racistas também cometem atos de violência na Itália, na França e na Inglaterra. Na França, a extrema direita racista emerge, na década de 80, como uma poderosa força eleitoral, com a ascensão da Frente Nacional, liderada por Jean-Marie Le Pen. O ultranacionalismo russo também ganha espaço, com a expressiva votação obtida pelos partidários de Vladimir Jirinovski nas eleições parlamentares de dezembro de 1993. Na Áustria, a extrema direita avança com o Partido da Liberdade, de Jorg Hauser.

Fundamentalismo religioso – Uma das principais causas dos conflitos atuais, o fundamentalismo ganha força principalmente a partir da vitória da revolução iraniana e da transformação do islamismo xiita em religião de Estado. A onda de intolerância religiosa que tem produzido conflitos, de diferentes graus de intensidade, em quase todos os países de maioria islâmica, em particular a Argélia, o Egito e os territórios de Gaza e Cisjordânia ocupados por Israel e atualmente em processo de transição para uma autonomia palestina sob a liderança da OLP, também é impulsionada pela ação de radicais sionistas.

Liberalismo e neoliberalismo – O liberalismo como doutrina econômica e política do capitalismo se enfraquece após a crise mundial dos anos 30, sendo substituído pelo dirigismo econômico de Keynes e, em parte, pelas doutrinas fascista e nazista. Durante a Segunda Guerra Mundial o dirigismo econômico é reforçado, mas a democracia é retomada como o grande símbolo de luta contra o nazismo. Essa combinação de democracia política liberal e dirigismo estatal na economia torna-se responsável, entre os anos 50 e 80, pela afluência das sociedades de consumo e bem-estar social (welfare States). Nos anos 80, porém, a crise econômica e os novos parâmetros de produtividade e rentabilidade estabelecidos pela revolução tecnológica colocam em questão o Estado de bem-estar e as políticas de benefício social nos Estados Unidos e na Inglaterra. Reagan e Thatcher lideram a implantação de uma nova política econômica, baseada em conceitos liberais extremados: Estado mínimo, desregulamentação do trabalho, privatizações, funcionamento do mercado sem interferência estatal, cortes nos benefícios sociais.

Socialismo e social-democracia – A desagregação da União Soviética e o fracasso das experiências socialistas no Leste Europeu, assim como as reformas de mercado na China, disseminam a idéia de que a doutrina socialista está morta. A solução para alcançar a justiça econômica e social passa a ser a social-democracia, que desde a década de 50 administra o sistema capitalista em bem-sucedidas sociedades européias, ou o próprio liberalismo ou neoliberalismo, que pretende deixar o capitalismo funcionar sem qualquer amarra. Entretanto, a social-democracia e o neoliberalismo também entram em crise no início da década de 90, por sua incapacidade em dar solução aos problemas sociais postos pelos novos parâmetros da revolução tecnológica.

Novo mapa-múndi – A década de 90, sob a ação das tendências à multipolaridade, formação de blocos regionais, desenvolvimento mais rápido de alguns países, ressurgimento do nacionalismo e da xenofobia religiosa e reformulações doutrinárias, configura uma nova divisão mundial de nações ricas, ao norte do Equador, e pobres, ao sul, e tendências contraditórias de crescimento da democracia em algumas regiões, manifestações autoritárias em outras, agravamentos dos conflitos em certas áreas e distensão em outras.

Crescimento da democracia – O regime democrático de governo torna-se paulatinamente o tipo de governo universal. Embora com restrições e diferentes interpretações sobre seu funcionamento e grau de participação cívica, faz parte do sistema político de todos os países da Europa e América do Norte, de todos os países da América Latina com exceção de Cuba e de parcela considerável dos países da África e Ásia.

Divisão Norte-Sul – Divisão simbólica para caracterizar as diferenças de riqueza e renda entre os países do chamado Primeiro Mundo, a maioria situada ao norte do equador, e os países pobres do Terceiro Mundo, a maior parte deles ao sul.

Conflitos – Em 1994 persistem conflitos regionalizados na ex-URSS, ex-Iugoslávia, África, Índia e Sri Lanka. Na ex-URSS os conflitos mais graves são a guerra entre a Armênia e o Azerbaijão, a luta na Moldávia entre as populações de etnia romena e russa, a luta dos rebeldes da Abcásia para separar a região da Geórgia e a guerra civil no Tadjiquistão, que opõe, de um lado, uma aliança entre militantes islâmicos e os partidários de uma democracia em moldes ocidentais e, do outro, os antigos dirigentes comunistas apoiados pelo Exército russo. Na ex-Iugoslávia, sérvios, croatas e muçulmanos travam uma guerra para definir da maneira mais favorável o mapa da inevitável partilha da Bósnia entre os três grupos étnicos. Na vizinha Croácia, persiste a tensão entre o governo nacional e as milícias formadas pela minoria sérvia, que controlam um terço do território do país. Na África continua a guerra fratricida de Angola e os conflitos em Ruanda, na Somália e no Chade. Entre os conflitos étnicos da Índia, sobressai a campanha movida por grupos extremistas hindus contra a numerosa minoria muçulmana. No Sri Lanka, a rebelião tâmil contra a maioria cingalesa continua a manifestar-se em atentados terroristas.

Ásia

O crescimento da democracia subordina-se às tradições culturais extremamente complexas das sociedades asiáticas, mas tem ganho terreno na Índia Sri Lanka, Japão e Filipinas. Fortes movimentos por democratização ocorrem na Coréia do Sul e Bangladesh.

Ásia do Pacífico – Incluindo o Japão, tigres asiáticos, China e países recentemente industrializados, como a Malásia e a Tailândia, é a região que apresenta atualmente a maior vitalidade econômica. As taxas médias de crescimento econômico são superiores a 8% e o volume do comércio exterior da região é o segundo maior do mundo. Contando com uma população superior a 1,5 bilhão de habitantes, representa um mercado em franca expansão.

Camboja – O processo de reunificação do país evolui com a reintegração dos movimentos guerrilheiros à vida política, sob supervisão de contingentes da ONU. Ainda permanecem divergências do Khmer Vermelho quanto às garantias de seu retorno, mas os problemas mais graves estão sendo solucionados com negociações a longo prazo.

África

O processo de democratização é muito lento e carregado de conflitos. Avança principalmente na África do Sul, mas é muito tumultuado na Somália, Etiópia, Sudão, Chade e Moçambique e extremamente conflituoso em Angola e na Argélia.

Norte da África – Abrangendo Egito, Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos, a região é fonte de preocupação para a Europa em virtude do crescente fluxo migratório desses países, em especial para a França e Alemanha. Durante as décadas de expansão econômica de 70 e 80 esse fluxo é bem recebido por facilitar a substituição dos trabalhadores europeus, mais qualificados e mais caros, por trabalhadores imigrantes nos serviços pesados e insalubres. A recessão do final dos anos 80 e a rápida elevação do desemprego tecnológico invertem a situação, já que os imigrantes passam a disputar vagas de trabalho com os trabalhadores europeus. Crescentes medidas restritivas são adotadas pelos países europeus para deter as migrações, agravando os problemas econômicos e sociais do norte da África.

África Meridional – As mudanças ocorridas na África do Sul e as possibilidades de pacificação de Angola e Moçambique geram ações unificadas entre os países da região para integrarem seus mercados e enfrentar em melhores condições a competitividade do mercado internacional.

África do Sul – As eleições multiraciais e multipartidárias de 1994, com a eleição de Nelson Mandela para presidente, abrem um novo capítulo na história do país, extinguindo totalmente a política do apartheid e estabelecendo direitos de cidadania para a maioria negra da população. O sistema de governo adotado, no qual todos os partidos com representação no Parlamento também estão representados no governo, necessita de um período de tempo para comprovar sua viabilidade. As tendências separatistas dos zulus e dos direitistas brancos permanecem presentes, embora a situação econômica tenha melhorado com o fim do bloqueio econômico e a retomada do fluxo de investimentos.

CEI

A Comunidade de Estados Independentes, formada pelas repúblicas da antiga União Soviética, tende cada vez mais a dar ênfase à independência dos Estados-membros e desprezar o aspecto de comunidade. Apesar de manterem laços econômicos muito estreitos, como herança da antiga União, e de formalmente constituírem forças armadas unificadas, cada república procura estruturar suas próprias forças armadas e libertar-se das antigas dependências econômicas, criando relações separadas tanto com a Europa e os Estados Unidos quanto com a Ásia. As tensões étnicas permanecem, assim como os problemas políticos. A Rússia, após o confronto entre o Parlamento e o presidente Yeltsin, em 1993, mantém seu plano de reconversão econômica, com altas taxas de desemprego mas inflação em baixa, e procura reconquistar a hegemonia sobre as demais repúblicas.

Europa Oriental

Todos os países da região continuam nos projetos de reconversão de suas economias para o sistema de mercado. Na maioria deles, a transição tem gerado inflação, desemprego massivo, sucateamento industrial e agrícola e problemas sociais de todo tipo. Como resultado, as eleições na Hungria e na Polônia reconduzem ao governo os antigos partidos comunistas reciclados e a oposição popular às políticas aplicadas pelos governos liberais tem crescido. Surgem também agrupamentos e manifestações nacionalistas e neonazistas com forte apelo popular. Há fortes tendências de integração na União Européia, mas isso depende não só da recuperação e reconversão econômica, como da evolução política de cada país.

América Latina

Nessa região a democracia formal vigora em todos os países, com exceção de Cuba, desde 1959 sob o regime de Fidel Castro, que enfrenta crescentes dificuldades para se manter no poder.

El Salvador – As eleições de março/abril de 1994 marcam a incorporação da FMLN à política institucional salvadorenha, selando um processo de negociação que termina com 12 anos de guerra civil. O candidato presidencial da FMLN perde as eleições para o candidato da direita, mas a coligação de esquerda firma-se como a segunda força política do país. Apesar de o processo de distensão avançar, os esquadrões da morte da extrema direita continuam ativos, assassinando inimigos políticos.

Oriente Médio

Persiste o processo de distensão entre Israel, os palestinos e os países árabes. Após o acordo com a OLP e a instalação de um governo palestino na Faixa de Gaza e Jericó, Israel mantém negociações com o Egito, acerta acordo de paz com a Jordânia e procura chegar a um acordo com a Síria. Todos esses países enfrentam a resistência de fundamentalistas islâmicos e judeus contrários aos acordos de paz e à instauração de um país palestino.

Referências bibliográficas

  • Almanaque Abril. ALMANAQUE ABRIL 95: a enciclopédia em multimídia. Abril, São Paulo, 1995. (bibliografia completa)
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